Calendário ritual
Corpos negros continuam sendo alvo, enquanto boa parte da população finge não ver ou entender as questões raciais.

Por Karen Cardial

21 de março é o Dia Internacional Contra a Discriminação Racial, data instituída pela Organização das Nações Unidas como um marco global de reflexão sobre desigualdades raciais.

No Brasil, porém, o significado desse dia ainda passa despercebido para grande parte da população. O desconhecimento não se limita à data: alcança também a própria história do país e as contribuições das comunidades negras para a formação da sociedade brasileira.

Para quem vive diretamente os efeitos do racismo, o 21 de março assume outro sentido.

“Enquanto boa parte da população finge não ver, saber ou entender sobre questão racial, nossos corpos negros continuam sendo alvo. Na escola, a data poderia servir para desmascarar o mito da democracia racial que adoece nossas crianças”. A afirmação é de Kiusam de Oliveira, pedagoga, escritora, doutora em Educação e mestre em Psicologia pela USP.

Para ela, o silêncio da sociedade diante das relações étnico-raciais revela um dos aspectos mais acentuados do racismo no país. A análise dialoga com a reflexão do antropólogo Kabengele Munanga, um dos mais importantes estudiosos das relações raciais no Brasil, que observa como o país naturalizou o racismo, muito embora seja uma prática criminosa.

Crédito da imagem: Alex Pires | “As mudanças estruturais começam com conselhos escolares negros, bibliotecas com 50% do acervo de literatura negro-brasileira e protocolos de combate ao racismo.” (Kiusam de Oliveira)

O silêncio da sociedade diante das relações étnico-raciais revela um dos aspectos mais acentuados do racismo no país.

Ignorar esse cenário, afirma Kiusam, permite que formas arraigadas de violência continuem operando dentro da própria escola.

“A escola precisa urgentemente discutir o extermínio simbólico e físico do povo negro que acontece todos os dias”, diz Kiusam, também produtora cultural, narradora de histórias e CEO da editora Osibatá.

Embora o país conte com um conjunto amplo de marcos legais voltados ao enfrentamento da discriminação racial na educação, a distância entre legislação e prática ainda é significativa. A Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, especialmente os artigos 26-A e 79-B, e o Estatuto da Promoção da Igualdade Racial estabelecem a valorização da história e da cultura afro-brasileira no currículo escolar e reconhecem o racismo como crime.

Mesmo assim, muitas ocorrências continuam sendo silenciadas dentro das instituições. Entre as manifestações mais intensas desse processo está o que a pesquisadora chama de asfixia do pertencimento, uma dinâmica que pode começar já nos primeiros contatos da criança com a escola.

“É quando o adulto olha para uma criança negra no início do ano e determina que o lugar dela na sala de aula é no fundão mesmo, que é natural o seu silêncio e inibição, ou que é natural querer sempre chamar a atenção.”

Segundo Kiusam, os efeitos dessas expectativas ultrapassam o campo pedagógico e atingem diretamente a construção da identidade. “O efeito de tudo isso na criança negra é o sentimento de não existência e de morte para si mesma. Ela passa a desejar ser branca.”

Parte desse processo se alimenta também das histórias que chegam às crianças. Kiusam chama de afronarração a proposta de recolocar a ancestralidade africana no centro das narrativas trabalhadas na escola.

“Afronarração não é contar historinha, é retomar o poder da palavra que nos foi roubada.” (Kiusam de Oliveira)

No cotidiano escolar, essa mudança pode começar em gestos aparentemente simples.

“Na hora da história, por exemplo, muitas vezes o professor vai até a caixa de livros da sala e escolhe qualquer título para leitura, sem nenhuma curadoria prévia. As crianças acabam ouvindo sempre as mesmas narrativas, quase sempre com personagens negros associados ao sofrimento, à submissão ou sem protagonismo.”

Para a pesquisadora, a escolha das histórias nunca é neutra. O repertório apresentado às crianças ajuda a construir referências sobre quem pode ser protagonista, quem pode ocupar lugares de reconhecimento e quem permanece à margem.

Essa mudança também alcança o modo como a história é apresentada na escola. Em vez de introduzir a presença negra pela escravidão, Kiusam defende recuperar conhecimentos produzidos muito antes desse período.

“Por que profissionais da educação precisam partir da história do negro escravizado, da travessia do Atlântico nos navios negreiros?”, questiona. A provocação leva a uma revisão mais ampla do repertório histórico que costuma aparecer nos livros didáticos.

“Se a primeira universidade está no continente africano, por que a inteligência é negada às pessoas negras?”, pontua a pedagoga. A provocação remete a um dado histórico pouco lembrado no currículo escolar: uma das instituições de ensino superior mais antigas do mundo foi fundada no século IX na cidade de Fez, no atual Marrocos.

“As crianças acabam ouvindo sempre as mesmas narrativas, quase sempre com personagens negros associados ao sofrimento, à submissão ou sem protagonismo.” (Kiusam de Oliveira)

A mesma perspectiva aparece em sua produção literária. Autora de O mundo no Black Power de Tayó, ilustrado por Taisa Borges, e semifinalista do Prêmio Jabuti 2025 com o livro Mãos, ilustrado por Natália Gregorini, Kiusam defende histórias capazes de fortalecer a soberania das crianças negras. “Livros como os meus não são somente para entreter. São para coroar.”

Em uma das experiências que relata, uma menina de quatro anos respondeu a um comentário racista sobre seu cabelo depois de um trabalho contínuo de fortalecimento da identidade em sala de aula. A resposta veio sem hesitação: “O meu cabelo é muito bom, porque ele é fofo, lindo e cheiroso.”

A cena inspirou uma das passagens de O mundo no Black Power de Tayó e ilustra como a literatura pode alterar o ambiente simbólico da escola. “A afronarração tem o poder de transformar a sala de aula em um território de encantamento”, declara.

Esse ambiente simbólico não se constrói apenas nos livros. Ele também aparece nas imagens que ocupam os espaços da instituição. “Olhe para as paredes da sua escola. Lá no palco que fica no fundo do pátio, o que está pintado? Branca de Neve, Cinderela, Bela Adormecida? Se todas as imagens que as crianças veem são brancas, a mensagem que a escola transmite é clara: o conhecimento, a beleza e o protagonismo pertencem a um único grupo.”

Para Kiusam, transformar esse cenário exige decisões institucionais concretas. “Mudança estrutural exige orçamento e caneta. Exige conselhos escolares negros, bibliotecas onde 50% do acervo seja de literatura negro-brasileira, protocolos claros de combate ao racismo.”

“O projeto político-pedagógico tem que ter o antirracismo como espinha dorsal, não como apêndice. Se não mexe na estrutura de poder da escola, é apenas um teatro pedagógico.” (Kiusam de Oliveira)

O debate inevitavelmente chega à formação docente. Muitos professores relatam insegurança ao abordar racialidade e discriminação em sala de aula. “Senhor professor, senhora professora, a sua insegurança é o sintoma do seu privilégio ou da sua omissão. Não se trata de medo de conflito, mas de falta de coragem ética”, declara.

Para Kiusam, discutir relações étnico-raciais também exige um movimento de estudo e revisão das próprias referências. “Você não ensina o que não habita. Portanto precisa aprender.” Esse aprendizado passa pelo contato com produções intelectuais e experiências de profissionais negros que pesquisam a história, a cultura e as experiências da negritude. “Aprender com quem vive, com quem conhece, com quem pode compartilhar informações.”

Para a pesquisadora, o papel da escola nesse processo é incontornável. É nesse espaço que muitas crianças constroem suas primeiras referências sobre si mesmas e sobre o lugar que ocupam no mundo.

“O tempo da paciência acabou. Ou os profissionais da educação se tornam agentes da sutura psíquica dos estudantes negros e negras ou continuarão sendo os causadores das rupturas psíquicas desses grupos. Não busquem ser bonzinhos. Busquem ser profissionais, éticos e justos.”