Na escola, jornalismo infantojuvenil mostra como uma notícia bem dada muda o jeito de aprender.
Por Karen Cardial
As notícias estão por toda parte. Na televisão ligada enquanto o jantar fica pronto, nos vídeos que rodam no celular, nos podcasts que os adultos ouvem no carro, nas conversas apressadas sobre política, economia ou um conflito distante. As crianças e os jovens escutam tudo de passagem: frases soltas, comentários pela metade, opiniões misturadas a fatos e tentam entender sozinhas o que está acontecendo no mundo.
Na escola, esse mesmo material pode ganhar outra densidade. Uma notícia mediada, contextualizada e escrita para crianças e jovens não é ruído, é ponto de partida: para leitura, debate, projetos, escrita, pesquisa e conexões entre diferentes áreas do conhecimento. É quando o jornalismo infantojuvenil encontra a sala de aula.
“A essência do jornalismo infantojuvenil é a mesma do jornalismo tradicional, da grande imprensa, mas direcionada aos estudantes e com uma finalidade mais pedagógica. As pautas são pensadas para que o professor consiga ensinar por meio de assuntos atuais, trazendo temas relacionados ao que está acontecendo no mundo com uma linguagem adequada a esse leitor”, explica Viviane Zanardo, jornalista e fundadora do JC – Jornal da Criança & Jovens, criado em 2019 e voltado a leitores entre 8 e 14 anos.
Segundo ela, o propósito do JC é informar o estudante, para que este ganhe propriedade sobre os temas, amplie repertório e se sinta motivado a opinar e participar de debates que já fazem parte do cotidiano social.
“Uma notícia mediada, contextualizada e escrita para crianças e jovens não é ruído, é ponto de partida: para leitura, escrita, debates e projetos.” (Viviane Zanardo)
No dia a dia do jornal, essa lógica se traduz nas escolhas editoriais. O JC trabalha com editorias como Ciência, Tecnologia, Brasil e Mundo, sempre a partir de assuntos que já circulam no noticiário e acabam chegando, de algum modo, às conversas das crianças e dos jovens. Viviane explica que a editoria de Meio Ambiente se tornou o carro-chefe do jornal, justamente por permitir conexões diretas com projetos pedagógicos desenvolvidos nas escolas e com temas globais que atravessam diferentes áreas do conhecimento. “É no meio ambiente que a gente consegue articular ciência, tecnologia, cidadania e projetos que já estão acontecendo dentro das escolas”, afirma.
A escolha não é aleatória. As pautas partem do que está em debate na sociedade, como acordos internacionais, mudanças climáticas, preservação e ciência aplicada, e ganham um tratamento que leva em conta o repertório do leitor infantojuvenil sem esvaziar o conteúdo nem transformá-lo em material didático.
Com periodicidade mensal e circulação impressa e on-line, o JC mantém um podcast e um canal no YouTube. “Cada formato amplia a forma de contato dos estudantes com a notícia, seja pela leitura, pela escuta ou pela participação direta em entrevistas e vídeos”, explica Viviane.
“As pautas partem do que está em debate na sociedade, como acordos internacionais, mudanças climáticas, preservação, ciência aplicada, considerando o repertório do estudante.” (Viviane Zanardo)
As pautas do JC dialogam com projetos pedagógicos desenvolvidos nas escolas e em redes municipais de ensino, e o jornal incorpora essas experiências ao conteúdo publicado. “Os estudantes sugerem temas, formulam perguntas, participam de entrevistas, produzem relatos e acompanham processos de apuração, levando para o jornal questões que nascem em sala de aula e retornam à escola como matéria-prima para leitura, debate e escrita”, conta a especialista.
Se no JC a notícia se constrói em diálogo direto com os projetos pedagógicos e com a participação ativa dos estudantes, no Joca o ponto de partida está na curadoria do fato jornalístico. Criado em 2011 e pioneiro no jornalismo infantojuvenil no país, o Joca acompanha os acontecimentos do Brasil e do mundo buscando identificar o que é relevante para a vida das crianças e dos jovens. “O nosso objetivo é levar notícia, mas sem viés opinativo”, explica Camila Pamplona, editora-chefe do Joca.
Segundo Camila, o Joca trabalha com a ideia de relevância. Uma pauta só entra quando faz sentido para o leitor e ajuda a conectar o que acontece fora da escola com o que se aprende dentro dela. É esse critério que permite que uma mesma notícia atravesse diferentes disciplinas e se transforme em base para projetos interdisciplinares, debates e investigações orientadas.
“Trabalhamos sempre com os fatos, buscando apresentar os diferentes lados de uma história”, pontua. “O respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente e a preservação dos direitos humanos são princípios claros presentes no editorial do Joca”, diz Camila.
Parece simples?
A complexidade dos assuntos não é evitada, é trabalhada. “Traduzir temas complexos para a linguagem infantojuvenil é o nosso maior desafio. A gente precisa tornar o texto acessível sem empobrecer o conteúdo”, afirma Camila. Para isso, o jornal recorre a glossários, infográficos, quadros explicativos e recursos visuais que ajudam o leitor a compreender conceitos difíceis sem afastá-lo da leitura.
Essa arquitetura editorial amplia o uso do jornal em sala de aula. Professores usam as matérias para discutir política, analisar dados econômicos, refletir sobre questões ambientais ou propor debates estruturados. “O jornal acaba funcionando como um arcabouço de assuntos que se relacionam. Uma mesma matéria pode ser lida sob a perspectiva de diferentes áreas do conhecimento, característica que faz com que o Joca seja frequentemente utilizado em projetos interdisciplinares”, observa.
Um professor de Filosofia, por exemplo, pode partir de uma reportagem sobre conflitos internacionais ou decisões políticas para discutir ética, argumentação e pontos de vista. Já na Matemática, uma notícia aparentemente distante do conteúdo curricular pode se transformar em ponto de partida para reflexões complexas. Camila cita o caso de uma matéria sobre a chamada “bolha financeira do Morango do Amor”, usada por professores para trabalhar noções de Educação Financeira, leitura de gráficos e análise de dados econômicos com os estudantes.
No JC, esse diálogo com a atualidade também orienta a construção de cada edição, estabelecendo conexões com pautas mais amplas, muitas delas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), já presentes no trabalho de redes municipais de ensino.
“Traduzir temas complexos para a linguagem infantojuvenil é o nosso maior desafio. A gente precisa tornar o texto acessível sem empobrecer o conteúdo.” (Camila Pamplona)
Além das editorias, cada edição impressa parte de um propósito definido, ancorado em acontecimentos que estão em debate na sociedade. Viviane conta que a edição de fevereiro de 2026, por exemplo, teve como tema central a segurança digital. A escolha não foi casual: foi motivada por episódios recentes envolvendo jogos on-line, como o Roblox, que mobilizaram crianças e jovens da mesma faixa etária do público-alvo do jornal. O JC foi a campo para ouvir esse público, reuniu relatos de estudantes e conversou também com empresas que atuam diretamente no ambiente digital, compondo um material que dialoga com dúvidas reais dos leitores e com discussões que já estavam presentes nas escolas.
Em novembro de 2025, o recorte foi outro. A edição foi construída com base na COP30, articulando o debate ambiental com a pauta da Consciência Negra. O JC trouxe como protagonista um menino de uma comunidade quilombola, ampliando o olhar sobre preservação, território, cultura e pertencimento. A reportagem se desdobrou em entrevistas com a família e na apresentação de práticas mantidas ao longo das gerações, conectando temas ambientais, históricos e sociais em uma mesma narrativa.
Esses recortes mostram como o jornalismo infantojuvenil transforma acontecimentos amplos em conteúdos que dialogam com o universo escolar. A notícia não chega isolada, mas contextualizada, atravessada por experiências concretas e por vozes que fazem parte da mesma faixa etária dos leitores. Para Viviane, esse movimento é fundamental para que o estudante reconheça o jornal como um espaço legítimo de participação e compreensão do mundo.
No Joca, essa relação entre notícia e formação aparece de forma explícita na maneira como o jornal compreende o papel do jornalismo na infância e na juventude. “A gente acredita que o jornalismo é uma ferramenta poderosa para construir a visão de mundo das crianças. Ele complementa muito a formação, porque não dá para formar um estudante sem desenvolver habilidades de leitura e de educação midiática”, discorre Camila. Para ela, esse trabalho vai muito além da identificação de fake news. “Envolve saber debater, argumentar, conseguir se posicionar e entender como a sociedade funciona. É assim que a criança constrói sua própria visão de mundo e forma suas opiniões”, explica.
Evidências
Essa concepção orienta escolhas editoriais que buscam oferecer aos leitores instrumentos para compreender a complexidade do mundo sem simplificações artificiais. Em vez de evitar temas difíceis, o jornal aposta em mediações que ajudam o estudante a se aproximar deles com segurança e repertório. É quando surgem iniciativas como a sessão “A Hora do Debate”, lançada de forma pioneira pelo Joca no ano passado. A proposta parte de um princípio central do jornalismo: toda notícia comporta diferentes pontos de vista. Cada edição apresenta um tema acompanhado de argumentos opostos, convidando os estudantes ao debate em sala de aula. Depois da discussão, os alunos participam de uma enquete no site do jornal, registrando suas posições.
A dinâmica tem sido apropriada por professores de diferentes áreas, não apenas de Língua Portuguesa. O debate, prática recorrente na escola, ganha um ponto de partida concreto e atual, ancorado em fatos e argumentos organizados. A partir daí, a notícia se desdobra em reflexões éticas, análises sociais, exercícios de argumentação e leitura crítica, em qualquer disciplina.
No JC, a inovação aparece com força na participação direta dos estudantes na produção do conteúdo. Viviane Zanardo relata que o jornal é o único periódico infantojuvenil que vai presencialmente às escolas para realizar videorreportagens com os alunos. Um exemplo marcante desse trabalho foi o projeto “Memória: passado e presente”, desenvolvido com apoio pedagógico no Colégio Visão, em Recife. A proposta nasceu em sala de aula, a partir de um trabalho sobre memória, pesquisa e escuta. O JC acolheu o projeto e o transformou em um podcast em que os próprios estudantes narraram o processo, explicaram como pesquisaram, como dialogaram entre si e o que aprenderam ao longo do percurso.
Os depoimentos revelaram mais do que domínio de conteúdo. Tornaram visível o envolvimento dos alunos, a capacidade de escuta, o amadurecimento das ideias e o orgulho de participar de um processo real de produção jornalística. Para Viviane, experiências como essa mostram como o jornal amplia a voz dos estudantes e transforma a aprendizagem em algo compartilhado, concreto e significativo.
No Joca, esse movimento também aparece quando o jornal se torna referência para produções jornalísticas dentro das próprias escolas. Projetos em que turmas criam seus próprios jornais, organizam pautas, produzem entrevistas e discutem critérios de relevância são frequentes. O contato com o jornal ajuda os estudantes a compreender conceitos como fonte confiável, checagem de informações, hierarquia da notícia e impacto social da informação, aprendizados que extrapolam o formato do jornal e passam a integrar a forma como eles leem o mundo.
Ao circular entre leitura, debate, produção e escuta, o jornalismo infantojuvenil deixa de ser só um conteúdo sobre o mundo e passa a ser uma forma de se relacionar com ele. Em comum, JC e Joca mostram que a notícia, quando pensada para esse público e mediada pela escola, pode se transformar em experiência formativa, capaz de articular currículo, atualidade e participação de maneira orgânica.
Apoio pedagógico estratégico
Para Camila Pamplona, o principal obstáculo para que o jornalismo infantojuvenil se torne rotina na escola está menos no interesse dos estudantes e mais na forma como o currículo ainda organiza o tempo e as práticas docentes. “Existe uma barreira curricular mesmo. Em Língua Portuguesa, o jornal entra com mais facilidade, especialmente quando o professor trabalha gêneros jornalísticos. Fora disso, muitos docentes ainda não conseguem enxergar todas as possibilidades de uso do jornal”, observa.
“Existe uma barreira curricular. Em Língua Portuguesa, o jornal entra com mais facilidade, especialmente quando o professor trabalha gêneros jornalísticos.” (Camila Pamplona)
É por isso que, segundo ela, o trabalho com jornalismo infantojuvenil não se sustenta sem apoio pedagógico contínuo. “O jornal sozinho não resolve. O professor precisa de suporte para entender como aquela ferramenta pode dialogar com a prática dele, com a turma dele, com a realidade da escola”, afirma. No Joca, essa estratégia se traduz em uma área pedagógica dedicada a formar, acompanhar e ampliar o repertório dos docentes ao longo do uso do jornal.
Essa mesma lógica aparece também no JC. Tanto no acompanhamento dos projetos desenvolvidos nas escolas quanto na forma como as pautas nascem do diálogo com professores e redes de ensino, o jornal se estrutura como parceiro do trabalho pedagógico, não como material isolado. A notícia entra na escola mediada, contextualizada e sustentada para ajudar o professor a transformar informação em aprendizagem.
Quando esse apoio existe, o jornal passa a ocupar um lugar consistente na vida escolar. Uma linguagem capaz de atravessar disciplinas, provocar perguntas melhores, organizar debates e devolver aos estudantes algo que eles já escutam todos os dias: o mundo, porém com mais sentido, contexto e possibilidade de compreensão.
Talvez o diferencial do jornalismo infantojuvenil esteja em sua capacidade de tratar a atualidade com densidade, aproximar a leitura da experiência cotidiana e dar sentido ao excesso de informação que circula ao redor das crianças e dos jovens. Uma forma mais honesta de ensinar crianças e jovens a ler o tempo em que vivem.