BNCC da Computação desafia escolas a transformar currículo em prática pedagógica consistente.
Por Karen Cardial
A implementação da BNCC da Computação se tornou uma exigência concreta para as escolas a partir de 2026, quando a educação digital e midiática passou a interferir diretamente no acesso a recursos públicos ao se vincular aos critérios do Fundeb, o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica. O que até então se organizava como diretriz curricular passou a exigir uma abordagem concreta das escolas.
“Na prática, o que mudou é que a educação digital passa a dialogar com o financiamento. As redes que não atualizarem seus currículos correm o risco de inabilitação para receber esses recursos essenciais”, explica Claudia Rossi, jornalista, pedagoga, especialista em educação midiática, cidadania digital e inteligência artificial aplicada à educação e fundadora da Conectar Educadores.
O avanço institucional já aconteceu, com a atualização dos currículos estaduais em grande parte do país. Segundo dados recentes do MEC, os currículos de 20 estados já foram atualizados, os de quatro estados estão em fase de aprovação e os de três estados ainda estão em elaboração. O desafio agora está na forma como essas diretrizes se organizam no cotidiano da escola.
O acesso à tecnologia cresceu, mas não se consolidou como experiência pedagógica estruturada. Dados do Anuário Brasileiro da Educação Básica de 2025 indicam que cerca de 95% das escolas públicas têm acesso à internet, mas apenas uma parte conta com conexão adequada para uso pedagógico.
“Quando a tecnologia chega sem letramento digital, sem formação docente e sem intencionalidade pedagógica, ela não melhora os resultados. Pode até aprofundar desigualdades”, afirma Claudia.
Sem letramento digital, formação docente e intencionalidade pedagógica, a tecnologia não melhora os resultados e aprofunda desigualdades.
O acesso aos recursos tecnológicos continua marcado por diferenças sociais e territoriais. “Os estudantes negros das regiões periféricas continuam tendo menos acesso a recursos tecnológicos. Se a educação digital não for inclusiva, a tecnologia vira um fator para ampliar a desigualdade”, reforça a pedagoga.
Quando a tecnologia se articula ao letramento digital e à formação docente, seu uso ganha consistência pedagógica, amplia as possibilidades de personalização do ensino e contribui para o avanço dos indicadores de aprendizagem e permanência.
A forma como a proposta é compreendida dentro das escolas limita sua implementação.
Em muitas redes, a BNCC da Computação acaba ficando concentrada no professor de tecnologia, quando ele existe, ou em quem cuida do laboratório de informática. Isso interrompe a continuidade do trabalho entre as turmas e impede que as aprendizagens avancem ao longo dos anos.
“A computação, nos termos da BNCC, é um direito de aprendizagem de todos os estudantes e, portanto, responsabilidade da escola inteira”, afirma Claudia. A ideia de transversalidade também aparece como um desafio quando não vem acompanhada de organização. A proposta prevê que diferentes áreas trabalhem essas competências, mas, na prática, o tema se dilui. “Quando todo mundo é responsável e não há coordenação, monitoramento e formação, ninguém de fato assume”, observa a pedagoga.
Em algumas escolas, a cultura digital está prevista no currículo, mas não se traduz em atividades concretas. Questões como privacidade, verificação de informações e personalização algorítmica deixam de ser trabalhadas pelos estudantes.
A expectativa de que a BNCC da Computação esteja ligada à formação técnica também afasta professores e reduz o alcance das propostas. A proposta envolve desenvolver raciocínio lógico, leitura crítica do mundo digital e tomada de decisão diante das tecnologias.
Mesmo em redes que já atualizaram seus currículos, essa distância entre o documento e a prática ainda permanece. “O currículo está posto, mas a prática não acompanha”, afirma Claudia.
Como se faz
A BNCC da Computação se organiza em atividades que podem acontecer com ou sem o uso de tecnologia. Na Educação Infantil, o trabalho se desenvolve de forma desplugada, sem telas, com foco na construção de sequência, comando e resolução de problemas.
“A professora propôs que construíssem um robô de papelão, um aluno se vestiu de robô e os colegas precisavam pensar nas ordens para que ele entendesse e executasse”, relata Claudia. O percurso é definido pela turma. O estudante que assume o papel de robô só pode agir com base nas instruções dadas pelos colegas. Indicações amplas não resolvem a tarefa. “Se falavam ‘vire para a direita’, o robô não podia deduzir que antes precisava dar dois passos. Se isso não estivesse no comando, ele não fazia”, explica.
A atividade exige detalhamento, organização de etapas e revisão das escolhas. A turma testa, erra, ajusta e reorganiza as instruções até que o percurso funcione. “Eles vão construindo como uma receita, um passo a passo”, afirma.
Ensino Fundamental Anos Iniciais
Para os Anos Iniciais, Claudia traz uma atividade centrada na leitura crítica de informações que circulam no ambiente digital.
A proposta começa com uma pesquisa simples. A turma acessa textos, notícias ou conteúdo on-line e, então, o professor conduz a leitura com perguntas que organizam a análise, a exemplo destas mencionadas pela pedagoga. “Quem escreveu isso? Onde foi publicado? Qual é a intenção? Que evidências sustentam o que está sendo dito?”
Os estudantes passam a observar a presença ou a ausência de autoria, a linguagem utilizada e o tipo de informação apresentada. Ao longo desse processo, identificam conteúdos confiáveis e diferenciam informações falsas ou distorcidas. “Eles começam a perceber quando um texto não traz fonte, quando exagera na linguagem ou quando não apresenta comprovação”, explica.
Ensino Fundamental Anos Finais
Nos Anos Finais do Ensino Fundamental, Claudia traz uma proposta que desloca o olhar dos estudantes para o funcionamento dos próprios aplicativos que utilizam no dia a dia.
“Eles começaram a investigar quais dados o aplicativo coleta, para que finalidade, o que acontece quando você aceita os termos de uso sem ler”, relata.
A leitura dos termos coloca os estudantes diante das permissões concedidas aos aplicativos. “Todo mundo já viveu isso: você pesquisa um produto e, de repente, começa a receber anúncios sobre esse tema. Parece que o celular está escutando. Na verdade, são sistemas que coletam dados, analisam comportamentos e constroem perfis. É a personalização algorítmica”, explica Claudia.
A análise aproxima o uso cotidiano da lógica dos sistemas e amplia a compreensão sobre como os dados organizam o que aparece na tela.
Ensino Médio
No Ensino Médio, as propostas avançam na investigação e na tomada de decisão diante dessas tecnologias.
Uma das atividades tem por base uma pergunta direta: Quando você envia uma mensagem de WhatsApp para um amigo em outra cidade, por onde essa mensagem passa até chegar ao destino? “Os alunos começam a levantar hipóteses. Falam de satélite, de nuvem, de coisas mais abstratas”, explica Claudia.
O professor apresenta um mapa dos cabos submarinos de fibra óptica e acompanha com a turma os trajetos possíveis dos dados. A visualização permite identificar regiões com maior concentração de conexões e compreender como essa infraestrutura se distribui globalmente. “Eles percebem que a internet tem caminho, tem território, passa por cabos no fundo do oceano”, mostra Claudia.
Com essas informações, os estudantes constroem o percurso da mensagem e passam a reconhecer a existência de rotas, controle de infraestrutura e desigualdade de acesso.
Outra atividade considera uma situação vivida pelos estudantes com certa frequência: alguém publica um comentário ofensivo sobre um colega em um grupo de WhatsApp. Cada estudante precisa decidir como agir: ignorar, curtir, responder, defender etc. Cada escolha abre um caminho diferente. “Eles transformam essa situação em um fluxograma. Se eu faço isso, o que acontece depois? Se escolho outro caminho, qual é o desdobramento?”, explica.
O exercício se constrói na organização dessas decisões. Os estudantes desenham os caminhos possíveis, registram as consequências de cada escolha e percebem como uma ação inicial altera toda a sequência.
Na etapa seguinte, esse fluxograma é convertido em uma narrativa digital interativa. Cada decisão leva a um novo cenário, que impacta relações, reputações e a convivência. “Eles começam a perceber que aquilo que parece pequeno no grupo tem efeito, se desdobra, volta”, afirma.
A atividade desloca o olhar do estudante para as consequências do que é dito, compartilhado e validado no ambiente digital.