Matemática sem sentido
Quando o ensino se concentra na conta, o estudante perde a compreensão e a dificuldade começa a se instalar.

Por Karen Cardial

A aprendizagem em Matemática segue como uma das dificuldades mais persistentes da educação básica brasileira. Avaliações como o Saeb e o Pisa mostram que muitos estudantes chegam às etapas finais da escolaridade com dificuldade para interpretar situações matemáticas, mesmo quando conseguem realizar operações.

“Muitos estudantes até sabem fazer a conta, mas não entendem o que estão fazendo. É uma dificuldade de compreensão, de sentido da Matemática”, afirma Paulo José dos Santos Pereira, professor de Matemática do Instituto Federal do Acre (Ifac) e doutor em Educação em Ciências e Matemática pela Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT).

Na experiência do professor, essa dificuldade vai sendo construída à medida que o ensino se organiza em torno de regras e procedimentos, enquanto aquilo que o estudante já conhece do mundo fica de fora. “Aqui, na realidade amazônica, temos estudantes ribeirinhos, indígenas, seringueiros, que já têm experiência com quantidade, medida, organização do tempo e do trabalho. Existe uma matemática no dia a dia deles, mas esse conhecimento nem sempre é reconhecido na escola”, afirma Paulo.

O professor explica que há comunidades que calculam a metragem cúbica de uma madeira sem recorrer à Geometria Espacial ensinada nos livros. Esse cálculo não vem de fórmulas aprendidas, vem da experiência, de um saber construído ao longo de gerações.

Durante os ciclos da borracha, o trabalho exigia organização precisa do tempo destinado ao deslocamento dos trabalhadores, ao corte das seringueiras e à coleta do látex, visando à otimização da produção. Tudo articulado por uma lógica matemática construída no cotidiano. “Eles têm um método, têm uma matemática para resolver o problema que vivem”, diz o matemático.

Esse conhecimento resolve situações reais, mas não costuma aparecer na sala de aula. E não é preciso ir longe para encontrar outros exemplos.

Na padaria, o valor pago depende da quantidade de pães. No posto de gasolina, o preço varia conforme a quantidade de combustível que abastece o veículo. Em uma tabela do Campeonato Brasileiro ou da Copa do Mundo, o estudante acompanha a classificação, compara resultados, interpreta dados. “O estudante está familiarizado com essas situações, mas essa matemática não é trazida para a escola”, observa Paulo. “Ela fica na vida dele.”

Essa separação ajuda a entender por que a Matemática ensinada na escola muitas vezes não se sustenta como aprendizagem.

Quando o estudante encontra um conteúdo que não se conecta com aquilo que ele vive, o processo passa a girar em torno da repetição. Ele resolve exercícios, aplica regras, chega a resultados, mas não constrói compreensão.

É nesse ponto que o letramento matemático passa a reorganizar o ensino.

“O caminho não é único, e é justamente esse movimento que desenvolve o pensamento matemático. O estudante vai construindo o raciocínio, não só aplicando uma regra”, ensina Paulo José Pereira.

Quando o estudante encontra um conteúdo que não se conecta com aquilo que ele vive, o processo passa a girar em torno da repetição.

Para Paulo, o que está em jogo é a capacidade de o estudante usar a Matemática como linguagem para interpretar o mundo. “Ele precisa ler uma situação, entender o problema, tomar decisões e pensar em como chegar a solução”, orienta.

Essa mudança aparece na maneira como as atividades são propostas. Em vez de começar por uma operação isolada, o professor pode partir de situações que fazem parte da vida do estudante. Ao trabalhar com compra e venda, por exemplo, o estudante lida com preços, compara valores, percebe a presença dos números decimais e entende que os centavos representam frações.

A conta continua existindo, mas deixa de ser o ponto de partida.

O mesmo acontece quando o estudante é convidado a pensar antes de formalizar uma resposta. “Diante de um problema como ‘o dobro de um número mais o seu triplo é igual a cinco’, ele pode testar possibilidades, experimentar, ajustar o raciocínio até encontrar uma solução. O caminho não é único, e é justamente esse movimento que desenvolve o pensamento matemático. Ele vai construindo o raciocínio, não só aplicando uma regra”, ensina Paulo.

A compreensão também se amplia quando o estudante percebe que uma mesma ideia pode aparecer de formas diferentes. “Uma fração como 1/4 pode ser representada em uma figura como parte de um todo. Pode aparecer como 0,25. Pode ser escrita como 25/100 ou, ainda, ser entendida como 25%. Ao transitar por essas representações, o estudante deixa de decorar e passa a compreender que há vários caminhos e que nem sempre o caminho mais curto é o mais simples para todos”, afirma.

Segundo Paulo, essa forma de trabalhar a Matemática aproxima-se da modelagem discutida por Ubiratan D’Ambrosio, professor universitário que propôs a compreensão da Matemática com base nos contextos culturais e sociais. D’Ambrosio chamou essa abordagem de etnomatemática. Ela também dialoga com a perspectiva da resolução de problemas desenvolvida por Lourdes de la Rosa Onuchic, em que o estudante investiga, levanta hipóteses e constrói soluções.

Formação docente

A Base Nacional Comum Curricular acompanha esse movimento ao valorizar a interpretação, o raciocínio lógico e o uso da Matemática em diferentes contextos, mas encontra obstáculos importantes, especialmente na formação de professores.

“Nos Anos Iniciais, a Matemática é ensinada por professores formados em Pedagogia. Nos Anos Finais e no Ensino Médio, por professores licenciados em Matemática”, reflete. Paulo acredita que essa divisão traz consigo uma discussão recorrente: qual deve ser o foco da formação docente.

Há quem defenda maior aprofundamento no conteúdo matemático. Outros apontam a necessidade de uma formação mais voltada para a prática do ensino, que ajude o professor a lidar com situações reais da sala de aula.

Paulo observa que essa tensão ainda está presente. A formação muitas vezes não consegue articular teoria e prática, e o professor acaba reproduzindo um modelo de ensino centrado em regras e procedimentos.

O resultado aparece na sala de aula: estudantes que resolvem contas, mas não conseguem explicar o que fizeram.

Com o tempo, essa experiência molda a relação com a Matemática. A disciplina passa a ser vista como difícil, distante, algo para poucos.

Para Paulo, esse cenário pode ser transformado quando a Matemática passa a ser reconhecida como parte da nossa vida. “O estudante precisa entender que a Matemática ajuda a interpretar o mundo, a tomar decisões, a resolver problemas do lugar em que vivemos”, afirma.

Quando isso acontece, a aprendizagem muda de lugar. “Ele deixa de ter medo e começa a aprender de verdade”, finaliza.