O excesso de notícias banalizam a violência contra as mulheres e as transformam em piada entre estudantes.
Por Karen Cardial
Na escola, é comum crianças e jovens escutarem relatos envolvendo violência contra a mulher. O assunto surge em conversas entre colegas que tiveram acesso a essas informações em outros espaços e as trazem para o ambiente escolar.
Mesmo sem acesso direto a redes sociais ou telas, estudantes entram em contato com relatos que os assustam e despertam curiosidade. As perguntas aparecem e, muitas vezes, ficam sem resposta. Pais e mães dizem que conversam com seus filhos, mas evitam tratar do assunto de forma direta.
A educadora Sheylli Caleffi, que há mais de 20 anos atua no enfrentamento da violência sexual e on-line, chama atenção para a importância dessa mediação: “A internet não educa. Ela tem entretenimento e possibilidade de aprendizado, mas quem educa são pessoas, a escola e a família.”
Sem esse acompanhamento, o que circula passa a ser incorporado como referência. Entre adolescentes, a violência torna-se piada e promove a repetição de expressões que ridicularizam e inferiorizam mulheres.
Segundo a especialista, a maneira como a violência contra a mulher é apresentada fora da escola contribui diretamente para esse processo. “Diferentemente do que se imagina, noticiar casos de violência extrema não dá apenas visibilidade, mas banaliza os casos, torna-os comuns”, afirma Sheylli. “Parece que cada vez tem que ter um caso ainda pior”, completa.
“Diferentemente do que se imagina, noticiar casos de violência extrema não dá apenas visibilidade, mas banaliza os casos, torna-os comuns” (Sheylli Caleffi)
A repetição constante desses episódios altera a percepção dessas situações. A gravidade deixa de causar estranhamento e passa a funcionar como referência. A maneira como esses casos são apresentados também interfere nesse processo. “Quando há detalhamento excessivo, com descrição minuciosa das violências sofridas, o efeito pode ser oposto ao esperado”, adverte a especialista.
Sheylli critica a cobertura de um caso de estupro coletivo, em que os detalhes do que foi feito com a vítima foram amplamente divulgados. “Para quem pratica violência, isso é um fetiche. E para quem não pratica, vai normalizando, naturalizando”, afirma.
Conteúdos de violência contra a mulher circulam, geram comentários, são compartilhados e chegam à escola. Nas redes sociais, eles aparecem por meio de memes, vídeos curtos, figurinhas e comentários que, na prática, funcionam como veículos de propagação dessa violência. Sheylli alerta sobre a dimensão desse fenômeno: “O ódio às mulheres nas redes sociais é quatro vezes maior do que todos os outros ódios somados.”
Nos grupos de WhatsApp, esse repertório se materializa em mensagens e imagens compartilhadas entre estudantes. “Que tipo de figurinha eles compartilham?”, questiona Sheylli, indicando como essas trocas revelam um imaginário que sexualiza e desvaloriza mulheres.
A pesquisa do Instituto Serenas (organização dedicada à prevenção da violência contra mulheres e meninas), realizada no ambiente escolar, ajuda a evidenciar como esse repertório aparece na escola. Entre os professores ouvidos, 45% relataram já terem presenciado estudantes chamando colegas de “vagabunda”.
Esse comportamento nocivo decorre de aprendizado adquirido em diferentes espaços. “Onde é que ele aprende isso? Na internet, com influenciadores que ficam falando mal de mulher, na cultura redpill e na machosfera”, responde a educadora.
A chamada cultura redpill reúne conteúdos que defendem uma visão hierárquica das relações entre homens e mulheres, frequentemente associada à ideia de superioridade masculina. A machosfera corresponde a um conjunto de comunidades digitais que difundem esse tipo de discurso.
Qual é o meu valor?
Esse repertório organiza a maneira como meninos e meninas passam a se ver e a se relacionar.
Para as meninas, as expectativas sociais se concentram na aparência, na aceitação, no pertencimento. A validação passa pelo corpo, pela imagem, pelo reconhecimento externo. Sheylli sintetiza essa situação com uma frase direta: “Para uma menina adolescente, ou ela é comível ou ela é invisível.” Entre esses dois polos, o espaço é estreito.
A menina que não se encaixa em um padrão de desejo perde visibilidade, lugar, pertencimento. A comparação constante fragiliza a autoestima e desloca o valor para o que é visto.
Para os meninos, a exposição a conteúdos que associam masculinidade à dominação e ao desprezo pelas mulheres vai moldando uma ideia de superioridade. O encontro dessas referências produz relações marcadas por desequilíbrio, em que uma parte se sente inferior e a outra aprende a desvalorizar.
Essas referências também aparecem no dia a dia, em gestos “simples”: a piada machista dita em casa, o comentário sobre o corpo de uma mulher, a risada que acompanha uma fala desrespeitosa, a ausência de reação. Pequenos sinais que indicam, para crianças e adolescentes, o que é aceitável.
Até na escola!
Enquanto as alunas são alvos frequentes de comentários com base em sua aparência, alguns depreciativos, tratados como “brincadeira”, outros lisonjeiros, os meninos geralmente recebem elogios por sua inteligência ou por seu desempenho. Sheylli chama atenção para esse ponto: “Eu até acredito que não seja por maldade, mas é algo que já está incorporado.”
Parte dos conceitos que geram esse comportamento são construídos dentro de casa. “A família precisa acompanhar o que esses meninos consomem na internet e como eles se relacionam”, afirma. Esse acompanhamento envolve observar o que circula nos grupos de chat do qual crianças e adolescentes fazem parte, como eles se comunicam, quais conteúdos compartilham.
Ao mesmo tempo, Sheylli ressalta que a família não atua sozinha. “Ela não pode acreditar que sozinha vai conseguir criar um menino que não seja machista, porque ele não é criado só pela família.” Na escola, lidar com esse tema nem sempre é simples. “Se não for uma violência muito explícita, muitas vezes nada é feito pela escola”, conta.
A dificuldade também aparece quando o tema envolve gênero. A resistência de parte das famílias limita o trabalho pedagógico e impede ações preventivas mais consistentes.
Sheylli cita o caso de uma professora de Biologia que foi advertida após abordar uma infecção sexualmente transmissível em sala de aula com estudantes de 17 anos. A ausência de educação sexual e de discussões sobre relações de gênero abre espaço para a construção de uma cultura com base em péssimas referências.
A escola precisa estar preparada para agir quando a violência aparece
Sheylli chama atenção para um cenário tão recorrente quanto alarmante: “Toda vez que eu pergunto para um professor o que ele faria se uma menina dissesse que sofreu uma violência, ele não sabe responder.”
Sem procedimento, a reação da escola é improvisada. A professora chama a coordenação, que aciona a direção, que envolve outros profissionais. Nesse percurso, a estudante é levada a relatar repetidas vezes o que aconteceu, revivendo a agressão diante de pessoas diferentes. “A gente ainda faz tudo errado. A menina conta uma vez, depois precisa contar de novo, e de novo, para várias pessoas. Isso expõe, fragiliza e prolonga o sofrimento”, afirma Sheylli.
Quando há um protocolo adequado, a escuta é feita por quem sabe como conduzir a situação com cuidado e discrição, e os encaminhamentos acontecem com mais clareza.
Sheylli destaca que esses procedimentos também têm um efeito importante sobre o coletivo. Eles mostram aos estudantes que situações de violência são levadas a sério, que há limites claros e que aquilo não pode ser tratado como algo normal.
Outro ponto é a formação do corpo docente. “Os professores precisam saber o que é violência de gênero, o que é misoginia, como isso aparece no cotidiano.”
“Eu sei que está pesado. É na escola que tudo aparece. Mas é também ali que a gente aprende a conviver.”